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Despojo/099

 "Escuto-me sonhar. Embalo-me com o som das minhas imagens... Soletra-se-me em recônditas melodias(...) 

O som duma frase imageada vale tantos gestos! Uma metáfora consola de tantas coisas!
Escuto-me... São cerimoniais em mim... Cortejos... Lantejoulas no meu tédio... Bailes de máscaras...Assisto à minha alma com deslumbramento..."*

Despojo/098

 "Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro."*

Resto/469c

" No fundo nenhum outro prazer do que a análise da dor, nem outra volúpia que a do colear líquido e doente das sensações quando se esmiuçam e se decompõem – leves passos na sombra incerta, suaves ao ouvido, e nós nem nos voltamos para saber de quem são, vagos cantos longínquos, cujas palavras não buscamos colher, mas onde nos embala mais o indeciso do que dirão e a incerteza do lugar donde vêm; ténues segredos de águas pálidas, enchendo de longes leves os espaços (...) e nocturnos; guizos de carros longínquos, regressando donde? e que alegrias lá dentro, que não se ouvem aqui, sonolentos no torpor morno na tarde onde o verão se esquece a outono... Morreram as flores do jardim, e, murchas, são outras flores – mais antigas, mais nobres, mais coevas a amarelo morto com o mistério e o silêncio e o abandono. As bolhas de água que afloram nos tanques têm a sua razão para os sonhos. Coaxar distante das rãs! Ó campo morto em mim! Ó sossego rústico passado em sonhos! Ó minha vida fútil como um maltês que não trabalha e dorme à beira dos caminhos com o aroma dos prados a entrar-lhe na alma como um nevoeiro, num sono translúcido e fresco, fundo e cheio de eternidade como tudo que nada liga a nada, nocturno, ignorado, nómada e cansado sob a compaixão fria das estrelas. Sigo o curso dos meus sonhos, fazendo das imagens degraus para outras imagens; desdobrando, como um leque, as metáforas casuais em grandes quadros de visão interna; desato de mim a vida, e ponho-a de banda como a um traje que aperta. Oculto-me entre árvores longe das estradas. Perco-me. E logro, por momentos que correm levemente, esquecer o gosto à vida, deixar ir-se a ideia de luz e de bulício e acabar conscientemente, absurdamente pelas sensações fora, com um império de ruínas angustiadas, e uma entrada entre pendões e tambores de vitória numa grande cidade final onde não choraria nada, nem desejaria nada e nem a mim próprio pediria o ser."

Resto 449

"Exame de consciência

Viver a vida em sonho e falso é sempre viver a vida. Abdicar é agir. Sonhar é confessar a necessidade de viver, substituindo a vida real pela vida irreal, e assim é uma compensação da inalienabilidade do querer viver.
Que é tudo isto enfim senão a busca da felicidade? E busca qualquer outra coisa?
O devaneio contínuo, a análise ininterrupta deram-me alguma coisa essencialmente diferente do que a vida me daria?
Com separar-me dos homens não me encontrei, nem (...)

Este livro é um só estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direções.
Alguma coisa nova, ao menos, esta atitude me trouxe? Nem essa consolação se aproxima de mim. Estava tudo já em Heraclito e no Eclesiastes: A vida é um brinquedo de criança na areia... vaidade e de espírito...
E em Job pobre, numa só frase: A minha alma está cansada da minha vida.

Escuto-me sonhar. Embalo-me com o som das minhas imagens... Soletra-se-me em recônditas melodias(...) 
O som duma frase imageada vale tantos gestos! Uma metáfora consola de tantas coisas!
Escuto-me... São cerimoniais em mim... Cortejos... Lantejoulas no meu tédio... Bailes de máscaras...Assisto à minha alma com deslumbramento...
Caleidoscópio de fragmentadas sequências(...)
Pompa das sensações demasiado vívidas... Leitos régios em castelos desertos, jóias de princesas mortas, por seteiras de castelos enseadas avistadas; virão sem dúvida as honras e poderio, para os mais felizes, haverá cortejos nos exílios... Orquestras adormecidas,
fios de(...) bordando sedas...

Em Pascal:
Em Vigny: Em ti
Em Amiel, tão completamente em Amiel:
...(certas frases)...
Em Verlaine, nos simbolistas:

Tanto doente em mim... Nem o privilégio de uma pequena originalidade de doença... Faço o que tantos antes de mim fizeram... Sofro o que já é forma velha sofrer... Para que mesmo penso estas coisas, se já
tantos as pensaram e as sofreram?...

E contudo, sim, qualquer coisa de novo trouxe. Mas disso não sou responsável. Veio da Noite e brilha em mim como uma estrela... Todo o meu esforço não o produziu nem o apagou... Sou uma ponte entre dois
mistérios, sem saber como me construíram..."

Resto/448e

" Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo.
Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico,(...) da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a
realidade interior a que eu chamo ou A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa – ainda que
mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados – mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para que assim realize o irrealizável, conjugue o contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ela fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual."

Resto 432

" Parecerá a muitos que este meu diário, feito para mim, é artificial demais. Mas é de meu natural ser artificial. Com que hei-de eu entreter-me, depois, senão com escrever cuidadosamente estes
apontamentos espirituais? De resto, não cuidadosamente os escrevo. E, mesmo, sem cuidado limador que os agrupo. Penso naturalmente nesta minha linguagem requintada. Sou um homem para quem o mundo exterior é uma realidade interior. Sinto isto não metafisicamente, mas com os sentidos usuais com que colhemos a realidade. A nossa frivolidade de ontem é hoje uma saudade constante que me rói a vida.
Há claustros na hora. Entardeceu nas esquivanças. Nos olhos azuis dos tanques um último desespero reflete a morte do sol. Nós éramos tanta coisa dos parques antigos; de tão voluptuoso modo estávamos incorporados na presença das estátuas, no talhado inglês das áleas. Os vestidos, os espadins, as perruques, os meneios e os cortejos pertenciam tanto à substância de que o nosso espírito era feito! Nós    quem? O repuxo apenas, no jardim deserto, água alada indo já menos alta no seu ato triste de querer voar."

Resto 374/b

"Mais do que outras artes, são a literatura e a música propícias às subtilezas de um psicólogo. As figuras de romance são — como todos sabem — tão reais como qualquer de nós. Certos aspectos de sons têm uma alma alada e rápida, mas susceptíveis de psicologia e sociologia. Porque bom é que os ignorantes o saibam — as sociedades existem dentro das cores, dos sons, das frases e há regimes e revoluções, reinados, políticas e (...) — há-os em absoluto e sem metáfora — no conjunto instrumental das sinfonias, no todo organizado das novelas, nos metros quadrados de um quadro complexo, onde gozam, sofrem, e misturam as atitudes coloridas de guerreiros, de amorosos ou de simbólicos.

Quando se quebra uma chávena da minha colecção japonesa eu sonho que mais de que um descuido das mãos de uma criada tenha sido a causa, ou tenham estado os anseios das figuras que habitam as curvas daquela (...) de louça; a resolução tenebrosa de suicídio que as tomou não me causa espanto: Serviram-se da criada, como um de nós de um revólver. Saber isto é estar além da ciência moderna, e com que precisão eu sei isto!"

Resto 239/b

"Insensivelmente, num erguer visual, vejo a saleta que nunca vi, onde a aprendiza que não conheci está ainda hoje relatando, dedo a dedo cuidadosos, as escalas sempre iguais do que já está morto. Vejo, vou vendo mais, reconstruo vendo. E todo o lar lá do andar de cima, saudoso hoje mas não ontem, vem erguendo-se fictício da minha contemplação desentendida.
Suponho, porém, que nisto tudo sou translato, que a saudade que sinto não é bem minha, nem bem abstracta, mas a emoção interceptada de não sei que terceiro, a quem estas emoções, que em mim são literárias, fossem - di-lo-ia Vieira - literais. É na minha suposição de sentir que me magoo e angustio, e as saudades, a cuja sensação se me mareiam os olhos próprios, é por imaginação e outridade que as penso e sinto.
E sempre, com uma constância que vem do fundo do mundo, com uma persistência que estuda metafisicamente, soam, soam, as escalas de quem aprende piano, pela espinha dorsal física da minha recordação. 
São as ruas antigas com outra gente, hoje as mesmas ruas diversas; são pessoas mortas que me estão falando, através da transparência da falta delas hoje; são remorsos do que fiz ou não fiz, sons de regatos na noite, ruídos lá em baixo na casa queda.
Tenho ganas de gritar dentro da cabeça. Quero parar, esmagar, partir esse impossível disco gramofónico que soa dentro de mim em casa alheia, torturador intangível. Quero mandar parar a alma, para que ela, como veículo que me ocupassem, siga para diante só e me deixe. Endoideço de ter que ouvir. E por fim sou eu, no meu cérebro odientamente sensível, na minha pele peculiar, nos meus nervos postos à superfície, as teclas tecladas em escalas, ó piano horroroso pessoal da nossa recordação.
E sempre, sempre, como que numa parte do cérebro que se tornase independente, soam, soam, soam as escalas lá em baixo, lé em cima, da primeira casa de Lisboa onde vim habitar."

Resto 231

" O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa."

Resto 164/a

" Somos morte. isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.
Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, mas num sentido verdadeiro.
Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo, tallhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida, que não tenhamos, nisso,um dia a menos nela.
Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideias e filosofias."

Resto 146/b

" Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parágrafos meus há que me arrefecem de pavor, tão nitidamente gente eu os sinto...Tenho escrito frases cujo o som, lidas alto ou baixo - é impossivel ocultar-lhes o som - é absolutamnte o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente.
Por que exponho eu de vez em quando processos contraditórios e inconciliáveis de sonhar e de aprender a sonhar? Porque, provavelmente, tanto me habituei a sentir o falso como o verdadeiro, o sonhado tão nitidamente como o visto, que perdi a distinção humana, falsa, creio, entre a verdade e a mentira.
Basta que eu veja nitidamente, com os olhos ou com os ouvidos, ou com outro sentido qualquer, para que eu sinta que aquilo é real. Pode ser mesmo que eu sinta duas coisas inconjugáveis ao mesmo tempo. Não importa."

Resto 144/c

"...eu, que desperto numa encruzilhada, não sabia de onde viera...vi que estava vestido de pajem...vi que tinha nas mão as mensagem que entregar..o papel estava branco, riram-se de mim...porque todos os papéis estão brancos, ou porque todas as mensagens se adivinham.
Por fim sentei-me na pedra da encruzilhada como à lareira que me faltou. E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado. Ninguém me quiz acreditar, nem por mentiroso, e não tinha lago com que provasse a minha verdade.
Palavras ociosas, perdidas, metáforas soltas, que uma vaga angústia encadeia a sombras...Saudade dos tanques das quintas alheias...Ternura do nunca sucedido..."

Resto 63<>64

" Disse Amiel que uma paisagem é um estado de alma, mas a frase é uma felicidade frouxa de sonhador débil. Desde que a paisagem é paisagem, deixa de ser um estado de alma. Objectivar é criar, e ninguém diz que um poema feito é um estado de estar pensando em fazê-lo.Ver é talvez sonhar, mas se lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos sonhar de ver.
De resto, de que servem estas especulações de psicologia verbal? Independentemente de mim, cresce a erva, chove na erva que cresceu ou vai crescer;erguem-se os montes de muito antigamente, e o vento passa com o mesmo modo com que Homero, ainda que não existisse, o ouviu. Mais certo era dizer que um estado da alma é uma paisagem; haveria na frase a vantagem de não conter a mentira de uma teoria, mas tão-somente a verdade de uma metáfora.
Estas palavras casuais foram-me ditadas pela grande extensão da cidade, vista à luz universal do sol, desde o alto de São Pedro de Alcântara. Cada vez que assim contemplo uma extensão larga, e me abandono do metro e setenta de altura, e sessenta e um quilos de peso, em que fisicamente consisto, tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento.
O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suiça achatada.Sai um navio pequeno - vapor de carga preto-dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspecto de mim, a noção clara e solar da realidade eterna, o instinto da minha inimportância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz."