Mostrar mensagens com a etiqueta Floresta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Floresta. Mostrar todas as mensagens

Resto 350/b

"Nenhum de nós queria saber do outro, porém nenhum de nós sem ele prosseguiria. A companhia que nos fazíamos era uma espécie de sono que cada um de nós tinha. O som dos passos uníssonos ajudava acada um a pensar o outro, e os próprios passos solitários tê-lo-iam despertado. A floresta era toda clareiras falsas, como se fosse falsa, ou estivesse acabando,mas nem acabava a falsidade, nem acabava a floresta. Nossos passos uníssonos seguiam constantes, e em torno do que ouvíamos das folhas pisadas ia um som vago de folhas caindo, na floresta tornada tudo, na floresta igual ao universo.
Quem éramos? Seriamos dois ou duas formas de um? Não sabíamos nem o perguntávamos. Um sol vago devia existir, pois na floresta não era noite. Um fim vago devia existir, pois caminhávamos. Um mundo qualquer devia existir, pois existia uma floresta. Nós, porém, éramos alheios ao que fosse ou pudesse ser, caminheiros uníssonos e inetermináveis sobre folhas mortas, ouvidores anónimos e impossíveis de folhas caindo. Nada mais. Um sussurro, ora brusco ora suave, do vento incógnito, um murmúrio, ora alto ora baixo, das folhas presas,um resquício, uma dúvida, um propósito que findara, uma ilusão que nem fora - a floresta, os dois caminheiros, e eu, eu, que não sei qual deles era, ou se era os dois, ou nenhum, e assisti, sem ver o fim, à tragédia de não haver nunca mais do que o outono e a floresta, e o vento sempre brusco e incerto, e as folhas sempre caídas ou caindo. E sempre, como se por certo houvesse fora um sol e um dia, via-se claramente, para fim nenhum, no silêncio rumoroso da floresta."

Resto 350/a

" Caminhávamos juntos e separados entre os desvios bruscos da floresta. Nossos passos, que era o alheio de nós, iam unidos, porque uníssonos, na macieza estalante das folhas, que juncavam , amarelas e meio-verdes, a irregularidade do chão. Mas iam também disjuntos porque éramos dois pensamentos, nem havia entre nós de comum senão que o que não éramos pisava uníssono o mesmo solo ouvido. 
Tinha entrado já o princípo do outono, e, além das folhas que pisávamos, ouvíamos cair continuamente, no acompanhamento brusco do vento, outras folhas, ou sons de folhas, por toda a parte onde íamos ou havíamos ido. Não havia mais paisagem senão floresta que velava todas. Bastava,porém, como sítio e lugar para os que, como nós, não tíhamos por vida senão caminhar uníssono e diverso sobre um solo mortiço. Era - creio- o fim de um dia, ou de qualquer dia, ou porventura de todos os dias, nem outono todos os outonos, na floresta simbólica e verdadeira.
Que casas, que deveres, que amores havíamos largado - nós mesmos o não saberíamos dizer. Não éramos , nesse momento, mais que caminhantes entre o que esquêceramos e o que não sabíamos, cavaleiros a pé do ideal abandonado. Mas nisso, como no som constante das folhas pisadas, e no som sempre brusco do vento incerto, estava a razão  de ser a nossa ida, ou da nossa vinda, pois, não sabendo o caminho ou porque o caminho, não sabíamos se partíamos se chagávamos. E sempre, em torno nosso, sem lugar sabido ou queda vista, o som das folhas que scombravam adormecia da tristeza a floresta."