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Despojo/073

"Tudo em mim é uma tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual.Tudo me interessa e nada me prende."*

Resto 299/a

" Doem-me a cabeça e o universo. As dores físicas, mais nitidamente dores que as morais, desenvolvem, por um reflexo no espírito, tragédias incontidas nelas. Trazem uma impaciência de tudo que, como é de tudo, não exclui nenhuma das estrelas.
Não comungo, não comunguei nunca, não poderei, suponho, alguma vez comungar aquele conceito bastardo pelo qual somos, como almas, consequência de uma coisa material chamado cérebro, que existe, por nascença, dentro de outra coisa material chamada crâneo. Não posso ser materialista, que é o que, creio, se chama aquele conceito, porque não posso estabelecer uma relação nítida uma relação visual, direi - entre uma massa visível de matéria cinzenta, ou de outra qualquer, e esta coisa eu que por detrás do meu olhar vê os céus e os pensa, e imagina céus que não existem. Mas, ainda que nunca possa cair no abismo de supor que uma coisa possa ser outra só porque estão no mesmo lugar, como a parede e a minha sombra nela, ou que depender a alma do cérebro seja mais que depender eu, para o meu trajecto, do veículo em que vou, creio, todavia, que há entre o que em nós é só espírito e o que em nós é espírito do corpo uma relção de convívio em que podem surgir discussões. E a que surge vulgarmente é a de a pessoa mais órdinária incomodar a que o é menos."

Resto 214/a

" Só uma vez fui verdadeiramente amado. Simpatias, tive-as sempre, e de todos. Nem ao mais casual tem sido fácil ser grosseiro ou ser brusco, ou ser até frio para comigo... Nunca tive paciência ou atenção do espírito para sequer desejar empregar esse esforço.
A princípio de observar isto em mim, julguei - tanto nos desconhecemos - que havia neste caso da minha alma uma razão de timidez. Mas depois descobri que não havia; havia um tédio das emoções, diferente do tédio da vida, uma impaciência de me ligar a qualquer sentimento contínuo, sobretudo quando houvesse de se lhe atrelar um esforço prosseguido.Para quê? pensava em mim o que não pensa. tenho subtileza bastante, o tacto psicológico suficiente para saber o «como»; o «como do como» sempre me escapou. A minha franqueza da vontade de ter vontade. Assim me sucede na inteligência, e na vontade. Assim me sucedeu nas emoções como me sucede na inteligência, e na vontade mesma, e em tudo quanto é vida."

Resto 10

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista,nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é uma tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual.Tudo me interessa e nada me prende.Atento a tudo sonhando sempre;..."