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Despojo/110

"Mas parece-me que para mim, ou para os que sentem como eu, o artificial passou a ser natural, e é o natural que é estranho.Não digo bem: o artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser diferente.A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade."* 

Despojo/074

"O prémio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo."*

Despojo/059

"Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau."
*

Resto 228/a

" Mais que uma vez, ao passear lentamente pelas ruas da tarde, me tem batido na alma, com uma violência súbita e estonteante, a estranhíssima presença da organização das coisas. Não são bem as coisas naturais que tanto me afectam, que  tão poderosamente me trazem esta sensação: são antes os arruamentos, os letreiros, as pessoas vestidas e falando, os empregos, os jornais, a inteligência de tudo. Ou, antes, é o facto de que existem arruamentos, letreiros, empregos, homens, sociedade, tudo a entender-se e a seguir e a abrir caminhos."

Resto 221

" A alma humana é vítima tão inevitável da dor que sofre a dor da surpresa dolorosa mesmo com o que devia esperar...Tal outro, que tem tudo por oco e vazio, sentirá como um raio súbito a descoberta de que têm por nada o que escreve, de que é estéril o seu esforço por ensinar, de que é falsa a comunicabilidade da sua emoção...Nada tem a sinceridade da afirmação inteligente com a naturalidade da emoção espontânea. E isto parece poder ser assim, a alma parece poder ter assim surpresas, só para que a dor lhe não falte, o opróbrio não deixa de lhe caber, a mágoa não lhe escasseie como quinhão igualitário na vida. Todos somos iguais na capacidade para o erro e para o sfrimento. Só não passa quem não sente; e os mais altos, os mais nobres, os mais previdentes, são os que vêm passar e a sofrer do que previam e do que desdenhavam. É a isto que se chama a Vida."

Resto 192/a

" Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal, porque não me incomodem,mas  acho que bastam os males naturais para mal que tenha de ver com o mundo. Vivemos todos neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viajem."